Evolução no tratamento trouxe novas formas de encarar o câncer

Enquanto o tratamento contra o câncer se aperfeiçoa cada vez mais, vem mudando também a forma como a enfermidade é encarada. Atuando na área da oncologia desde o final da década de 1980, o médico Sergio Roithmann recorda uma rotina de consultas em domicílio, no início da carreira, por conta do estado extremamente debilitado em que se encontravam os doentes.

 

—Peguei o tempo em que era proibido dizer o diagnóstico ao paciente. A família ficava sabendo e havia a combinação de esconder porque se achava que o paciente não aguentaria essa tristeza. Era uma vergonha ter câncer, uma sentença de morte — conta Roithmann, chefe do Serviço de Oncologia do Hospital Moinhos de Vento.

 

Participação do paciente

 

Se antes o cirurgião era uma figura central — o tumor precisava ser extirpado a qualquer custo, independentemente do tamanho da intervenção e das sequelas —, hoje a abordagem se tornou multidisciplinar, com equipes compostas por profissionais de diversas especialidades. Além do cirurgião, do oncologista e do radioterapeuta, há enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, dentistas.

 

— O paciente participa, discute, escolhe, luta com a família e com o médico, o que aumenta enormemente as chances de viver melhor e de cura. Aprendemos a respeitar mais as pessoas, as necessidades. Perdemos o medo de falar o nome da doença — diz Roithmann.

 

Quebra de tabus

 

 

Com o aumento da expectativa de vida da população e o controle de outras causas comuns de morte (como doenças infecciosas e cardiovasculares), o câncer deve se tornar cada vez mais presente, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. O tema é frequente nos meios de comunicação, e o fato de figuras públicas revelarem seu diagnóstico — como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente afastada, Dilma Rousseff, a apresentadora Ana Maria Braga, o ator Reynaldo Gianecchini —, por vezes exibindo a aparência transformada pelo tratamento, contribui para que o público lide com isso de forma mais tranquila.

 

Caso mais recente, o ator Edson Celulari, 58 anos, divulgou no mês passado uma foto sem cabelo e informou estar cuidando de um tipo de tumor incomum, que ataca o sistema imunológico. "Reuni minhas forças, meus santos, um punhado de coragem... coloquei tudo numa sacola e estou indo cuidar de um linfoma não Hodgkin. Foi um susto, mas estou bem, ao lado de pessoas amadas. A equipe médica é competente e experiente. Estou confiante, pensando positivo e com fé sairei deste tratamento ainda mais forte”, postou Celulari em seu perfil do Instagram.

 

— Se eles, que são os superartistas, os superpolíticos, também têm câncer, a população também pode ter. Foi um grande serviço nesse sentido. Toda vez que alguém vem à tona, tem uma contribuição. Desmistifica, deixa de ser um tabu — comenta o oncologista José Bines, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro. — As pessoas vivem apesar do câncer — completa.

 

Estamos próximos da cura?

 

Especialistas são cautelosos ao falar sobre a descoberta da cura. Carlos Barrios, diretor do Hospital do Câncer Mãe de Deus, explica que a doença é curável se detectada cedo, mas ainda não se pode prever quando o pleno restabelecimento de um paciente com tumor em estágio avançado se tornará uma realidade.

 

— Os resultados estão sendo melhores. Tem mais gente vivendo com câncer por mais tempo e mais gente sendo curada do que anos atrás. Temos desafios de pesquisa, de acesso, econômicos, mas estamos ganhando a luta. Os pacientes vivem mais, vivem melhor e são curados numa maior proporção — conclui Barrios.

 

Perspectivas animadoras para o câncer de mama

 

Menos quimioterapias

 

O estudo MINDACT, desenvolvido por pesquisadores europeus e americanos e divulgado em abril, mostrou os resultados animadores de uma prática que logo poderá chegar ao dia a dia dos consultórios médicos. No experimento envolvendo pacientes com câncer de mama em estágio inicial, a avaliação do perfil genético dos tumores permitiu uma redução de até 46% na prescrição de quimioterapias.

 

— Evita-se oferecer às pessoas tratamentos que não vão beneficiá-las. Nenhuma dessas drogas é isenta de efeitos colaterais — diz José Luiz Pedrini, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia e chefe do Serviço de Mastologia dos hospitais Nossa Senhora da Conceição e Ernesto Dornelles, em Porto Alegre.

 

Ao custo aproximado de R$ 13 mil, o teste já está disponível na Holanda. Pedrini ressalta que um único ciclo de quimioterapia no Brasil pode custar até R$ 8 mil, e há pacientes que se submetem a 18 ciclos. A implementação de uma testagem que pudesse evitar sessões inúteis, além de preservar o paciente contra o sofrimento físico e emocional, significaria também uma economia de recursos.

 

— Se eu fosse gestor de plano de saúde ou do SUS, certamente faria esse investimento — opina o mastologista.

 

Menos exames

 

Publicada em maio pela revista científica Nature, uma pesquisa inglesa demonstrou avanços na detecção dos casos de câncer chamados de aleatórios, que correspondem por até 95% das ocorrências no Brasil: trata-se das pacientes que não têm, entre os parentes próximos, registros prévios de tumor de mama. São as situações mais desafiadoras para os especialistas, o que torna necessária a rotina de exames periódicos de rastreamento, como a mamografia, a partir dos 40 anos.

 

 

Os cientistas identificaram 93 genes que, ao sofrerem mutações, transformam uma célula normal em uma célula doente. A descoberta permitirá o desenvolvimento de novas drogas e, provavelmente antes disso, na opinião do mastologista José Luiz Pedrini, o acesso a testes genéticos rápidos — e mais baratos do que os procedimentos disponíveis hoje. Em amostras de sangue ou saliva, será possível apontar a presença dos genes "perigosos". Mulheres com genoma alterado iniciarão mais cedo o acompanhamento médico, podendo se submeter antes a cirurgias ou tratamentos preventivos. As demais estarão liberadas de anos — e até mesmo décadas — de exames de rastreamento desnecessários.

 

— Vamos fazer mamografia só naquela paciente que tem risco de câncer. Se não há nenhum gene alterado, a chance de câncer de mama é nula — justifica o mastologista.

 

 

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